Rede social atrai médicos

2 de abril de 2018

Memes descontraídos, gifs animados, sequências de stories coloridos e muitos emojis. A linguagem é acessível, como pede a internet, mas o assunto é sério: a saúde. Cada vez mais médicos têm utilizado as ferramentas de redes sociais para se comunicar com os pacientes. Os profissionais da medicina descobriram no Instagram, Facebook e afins uma nova maneira de exercer o objetivo maior da profissão, cuidar das pessoas. A prática tem se convertido em uma forma de combate à fragilidade das informações na web, mas, por outro lado, requer o cumprimento de uma série de regras.

Catorze mil curtidas. Treze mil compartilhamentos. Onze mil comentários. Os números dignos de qualquer influenciador digital são, na verdade, de uma postagem sobre as mudanças que a maternidade provoca no cérebro da mulher. O assunto técnico, fruto de um estudo científico publicado na revista Nature, ganhou contornos de curiosidade na página O Meu Pediatra e viralizou. A ideia foi do pediatra Reginaldo Freire, que ingressou nas redes há pouco mais de um ano. “Na nossa sociedade atual, as redes sociais permitem levar a informação para mais gente e de um jeito mais rápido. Decidi criar os perfis em função das dúvidas recorrentes dentro do consultório”, conta.

Reginaldo descobriu nesse elo com o paciente uma diversão. Baixou aplicativos e foi buscar informações sobre como se comunicar nas redes. É ele quem edita os vídeos, faz as montagens e coordena as postagens. Tudo sem organograma, entre consultas, salas de parto, mestrado e outros afazeres. No Faceboook, tem 33 mil curtidores. No Instagram, são quase 40 mil seguidores. A meta dele é disseminar conteúdo empoderador. É assim que também enxerga o obstetra Thiago Saraiva, que acumula 7 mil seguidores no Instagram. Ele começou a mesclar postagens pessoais com profissionais com maior intensidade há cerca de quatro anos. É um dos responsáveis por fomentar o debate e os esclarecimentos sobre parto humanizado na rede. Thiago geralmente faz as postagens quando chega em casa ou nos intervalos, sempre que recebe uma dúvida pertinente ou vê algum estudo. É mais adepto da instantaneidade dos stories (fotos e vídeos postados no Instagram que ficam disponíveis por curto período de tempo). “Nunca tive medo da exposição e vejo as redes como ferramentas importantes na busca por informação”. 

É o que também defende o nutrólogo Eduardo Magalhães, o @dr.saude. Nas redes há cinco anos, por uma brincadeira, ele aposta nos conteúdos sobre alimentação e qualidade de vida saudável. “Gosto de saber que  estou educando as pessoas, me sinto bem em passar as informações”, diz. Com as páginas na internet, todos eles acabaram ganhando visibilidade, o telefone do consultório passou a tocar mais. Mas, em uníssono, eles garantem que o objetivo não é esse. 

Ética e regras balizam publicações

O uso de redes sociais pelo médicos não é ilegal, e é até visto como uma forma de combater notícias falsas sobre saúde disseminadas na internet, porém precisa ser feito de acordo com regras. Diante do crescente número de profissionais com perfis no Facebook, Instagram e Twitter, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou em 2015 a resolução 2.126, que estabelece critérios orientadores da prática médica. Entre as proibições, está a de postar fotos de antes e depois dos procedimentos e a de divulgar valores de consultas.

O documento atualizou uma resolução anterior, a 1974/011, que já versava sobre o mesmo tema. “Não há como fugir das redes hoje em dia. É um meio importante de comunicação entre o médico e o paciente. A resolução veio no sentido de nortear para que a prática não tenha caráter sensacionalista e de autopromoção, mas se alie a uma medicina ética e responsável”, explicou o presidente do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), André Dubeux. 

Nas redes sociais, o médico pode dar noções de higiene, dicas sobre prevenção de doenças e tudo o que tiver relação com a sua especialidade e for reconhecido cientificamente. É interessante que ele dê, sempre que possível, as fontes da informação. Também está liberado usar uma linguagem mais coloquial, próxima da realidade da internet, como o uso de memes. Desde que siga os preceitos anteriores.

Por outro lado, as orientações dadas de modo online não podem se caracterizar como atendimentos. O médico também não pode, seja em uma página pessoal o profissional, fotografar procedimentos ou tirar selfies em salas cirúrgicas, já que isso expõe o paciente. “Entra na questão do sigilo médico (um dos principais princípios éticos da profissão). É vedado fotografar partes do corpo abertas, por exemplo”,alertou Dubeux.

O obstetra Thiago Saraiva tem uma lista de cuidados para manter a ética online. “Evito, por exemplo, postar um assunto que não seja consenso na ciência. E acho que não devemos fazer parceria com blogueiros, influenciadores digitais, que repercuta em benefícios para nós”, conta. Para ele, deveria haver uma maior publicização das regras do Conselho e um papel mais atuante das entidades de saúde na fiscalização.
 
Os médicos que descumprirem a resolução do CFM estão sujeitos a investigação, que pode começar com uma sindicância e levar até a cassação do registro. “Até hoje, nunca houve pena máxima, pois muitos médicos fazem até sem maldade. Nesses casos, a gente faz um termo de ajustamento de conduta”, disse o presidente do Cremepe. Neste ano, chegaram cerca de 10 denúncia ao conselho por uso indevido das plataformas online. As queixas podem ser feitas pelos pacientes ou pela própria equipe de fiscalização do Cremepe.

O cuidado ao escolher quem seguir

Imersa nas dezenas de dúvidas que perpassam a cabeça de uma mãe de primeira viagem, a advogada Polyanna Neves, 30 anos, começou a  vasculhar a internet em busca de informações. Ao ler sobre icterícia, foi direcionada por meio de uma hashtag para o perfil do pediatra Reginaldo Freire. “Entrei e tinha um post sobre o tema, que foi útil na época. Acabei seguindo e me interessei pelas outras postagens, pela linguagem acessível com que o conteúdo é passado”, conta.

Com dificuldades para levar em frente a amamentação, ela também encontrou na rede motivação e instruções para alimentar Maria Fernanda, hoje com oito meses. “Nos primeiros meses, a gente se sente fragilizada e lá acabei aprendendo várias coisas”, detalhou Polyanna. Ela segue uma média de 50 perfis de profissionais de saúde, mas só levou para a vida real o atendimento com Reginaldo Freire, hoje pediatra da sua filha. “Acho importante, pois a criação dessas páginas com conteúdo sério, diante da quantidade de informações que existe na internet, deixa a gente mais tranquila”, acrescentou.

A engenheira Flávia Chaves, 30, segue muitos perfis de profissionais de saúde para os quais tem interesse de frequentar o consultório. “Sigo fisioterapeuta, nutricionista, médico. Acho que 5% do meu feed (linha do tempo da rede social) é só de saúde. Acabo tirando muitas dúvidas do cotidiano, coisas que não me fariam marcar uma consulta para perguntar”, explica. 

Pessoas como Flávia e Polyanna se multiplicam na rede. Somente o nutrólogo Eduardo Magalhães tem 142 mil seguidores no Instagram. Ele  explica, entretanto, que essas pessoas não podem esperar do médico prescrições ou consultas, seja nas redes ou nos aplicativos de mensagem, como o Whatsapp. “É meramente um caminho de informação generalista. De atos que a pessoa pode ter para cuidar da própria saúde. Realizar consultas online, inclusive, é proibido”, diz.

Por parte dos pacientes, um cuidado necessário antes de seguir as dicas e orientações é verificar se o perfil do médico na rede social é verdadeiro. Há duas formas de fazer isso. Uma delas é acessando os sites dos conselhos regionais de medicina e colocando os registros profissional ou de qualificação de especialista ou até o nome do profissional na aba de localização. A página deverá exibir uma foto e outros dados. A outra maneira é entrar nos portais.


Fonte: Diário de Pernambuco

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