Sem equipe para abrir leitos de CTI na nova emergência do Hospital de Bonsucesso, médicos têm que escolher quem vive

16 de março de 2018

Na pequena sala de procedimentos da emergência, preparada para receber apenas uma pessoa, funciona uma improvisada sala vermelha da nova emergência do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), inaugurada há duas semanas. Lá, dois pacientes estão sendo atendidos. Um terceiro dá entrada com parada cardiorrespiratória. Recebe massagem cardíaca numa maca, espremida entre outras duas. O médico grita “vou intubar, oxigênio!” e, sem outra opção, retira o tubo que leva o gás para a máscara do idoso deitado ao lado, com diagnóstico de câncer de pulmão. Apesar de todo o esforço, o homem enfartado morre. O oxigênio volta ao paciente, que lutava há meia hora para respirar sozinho.

— Os médicos aqui precisam decidir entre quem tem mais chance de viver — diz um profissional que assistiu à luta do único clínico geral de plantão ontem no setor.

O corpo do morto mal havia sido retirado da sala, num saco, quando outras duas pessoas deram entrada no setor. Agora são quatro na sala vermelha improvisada. O clínico ficou com a responsabilidade de cuidar delas e dos demais 65 pacientes que se dividiam entre duas enfermarias e os corredores, já repletos de macas. No rosto do profissional, que dividia o turno com apenas um cirurgião e um pediatra, o desespero era evidente.

— No corredor da emergência tinham oito pacientes em macas e 59 doentes internados. A maioria em estado grave. Na enfermaria de mulheres, há quatro pacientes intubadas, em uma situação de total absurdo. Encontramos de plantão um clínico, um pediatra e um cirurgião. É necessário que a direção se pronuncie e tome medidas enérgicas e que o Ministério da Saúde promova a imediata contratação de pessoal para a emergência de Bonsucesso — diz o presidente do Cremerj, Nelson Nahon, que esteve ontem no hospital para uma assembleia de emergência convocada pelos médicos.

Seis pedidos de demissão em duas semanas

Trabalhar num ambiente com tantos problemas não é para todos: desde que a nova emergência abriu, seis médicos já pediram demissão.

— Há seis meses, tínhamos cerca de 40 clínicos na emergência. Hoje, são 12. Na terça, um clínico concursado, após ter dado plantão noturno sozinho na segunda-feira, pediu exoneração. São 12 horas tendo que escolher quem vai usar o respirador, quem será monitorado, quem tem mais chance de viver. As pessoas saem dos plantões destruídas — desabafa um dos médicos.

Outro profissional contou que, desde que a nova emergência foi aberta, todos os pacientes intubados morreram:

— Eles não têm o suporte de terapia intensiva 24 horas que deveriam receber.

O Departamento de Gestão Hospitalar (DGH) do Ministério da Saúde no Rio informou que a SAS autorizou a convocação de 35 profissionais para a nova emergência. Desde a gestão passada — a direção do HFB foi trocada no último dia 6 — no entanto, pessoas aprovadas no último certame, feito há quatro anos, têm sido procuradas, mas nenhuma aceitou assumir a vaga.

O DGH afirmou ainda que, durante o dia de ontem, uma equipe formada por um clínico geral, dois cirurgiões, dois ortopedistas e dois pediatras, estava trabalhando.

— O ortopedista, o cirurgião e o pediatra não vão atender o paciente enfartado, assim como eu não vou operar um paciente — esclarece um clínico geral que atende no setor.

Déficit de mil profissionais, mostra consultoria

A nova emergência, com 3.500 metros quadrados, segue com as salas amarela (dez leitos) e vermelha (quatro leitos) fechadas desde a inauguração, em 28 de fevereiro. Não há profissionais de saúde para que elas entrem em funcionamento, apesar de uma decisão judicial ter determinado, em outubro de 2017, que a Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde contratasse os funcionários necessários.

Levantamento realizado pela direção do HFB, com a consultoria do Sírio Libanês, mostra que é necessário contratar mais de mil profissionais, entre médicos, enfermeiros e pessoal administrativo, para que o novo setor funcione em sua capacidade máxima, atendendo até cem pacientes ao dia. Após apresentar esse levantamento, o diretor Gilson Max Freitas de Araújo foi exonerado. Em seu lugar, assumiu Luana Camargo da Silva, cujo currículo o Ministério da Saúde se negou a informar.

Ao mesmo tempo que os médicos estão pedindo demissão, a demanda aumentou com a abertura da nova emergência. No primeiro dia de funcionamento, em 12 horas, 27 pacientes deram entrada no setor. No segundo dia, mais 64 foram acolhidos. No terceiro, foram 87 doentes em 24 horas.

— Até que decidiram fechar a classificação de risco e o atendimento está restrito a pacientes em risco de vida, mas quem faz essa triagem é a recepcionista e o porteiro, que não têm qualquer preparo para isso — relata um profissional do setor.

O DGH afirma que a nova emergência do HFB está funcionando com a mesma capacidade de atendimento que dispunha antes da mudança para as novas instalações, mas agora em melhores condições de conforto.
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Fonte: Jornal Extra

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