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Carta de Salvador
O trabalho médico, ponto central de nosso penúltimo Congresso
em 1997, em Goiânia (Goiás), continua aviltado e desvalorizado.
As relações de trabalho precárias, pioraram em face
da utilização dos contratos temporários e cooperativas
no serviço público. Em todo o país a situação
pouco mudou: salários achatados, rede pública em precárias
condições na maioria dos locais, rotatividade e exploração
nos empregos privados. Na Saúde, a política se expressa
pela privatização dos hospitais públicos, através
das Organizações sociais, a exemplo do que ocorre na Bahia,
restringindo o direito à saúde, expresso na Constituição.
Nos consultórios constatamos a dependência quase que total
aos convênios, que no intuito de aumentar seus lucros, promovem
descredenciamento e assalariam diretamente os médicos em suas unidades
próprias. A tabela do SUS continua a ser uma afronta à nossa
profissão, confrontada agora, com a tabela FENAM-SUS, elaborada
em momento apropriado pela FENAM.
Esta crise histórica que se arrasta por décadas, aprofundou-se
no governo FHC fruto de seu projeto de desmonte do estado e descaso com
as políticas sociais. Neste contexto, continuam ocorrendo demissões,
perdas de direitos trabalhistas, arrocho salarial e trabalho ainda mais
aviltado.
A política de saúde resume-se a ações focais
com exagerada cobertura da grande mídia e do marketing oficial,
e claros objetivos político-eleitorais, visando viabilizar a candidatura
Serra para 2002. O que tem-se visto são os mutirões e as
campanhas relâmpago setorizadas, sem no entanto atacar com profundidade
os problemas que afligem a população.
O "apagão" e a seca são apenas dois aspectos
da política que despreza o Brasil e os brasileiros, privilegiando
o sistema financeiro internacional. O Governo Federal desvia fabulosas
somas de recursos para o pagamento de juros e serviços de uma dívida
contraída durante a Ditadura à revelia da sociedade, e que
explodiu durante o mandarinato de FHC. São dez milhões de
dólares por hora para o sistema financeiro. O povo brasileiro já
se manifestou em plebiscito popular pela suspensão do pagamento
da dívida externa, até que seja realizada uma auditoria
nessa mesma dívida. Esta é uma pré-condição
para a mudança da política de saúde.
Temos de enfrentar o Governo e os empregadores privados com um plano
de lutas nacional, que agregue os médicos em torno de bandeira
unitárias e ações conjuntas, dando uma perspectiva
coletiva e nacional à luta pelo resgate da nossa profissão.
É hora de confirmarmos nossos compromissos éticos de que
o alvo de toda a atenção do médico é a saúde
do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo
de zelo e o melhor de sua capacidade "profissional", e para
isso deve ser bem remunerado.
Nesse sentido, o Congresso da FENAM aprovou o Plano de Lutas traduzido
nos itens abaixo:
1- unificar o movimento médico nacional e nossas bandeiras de
luta;
2- implantar a Tabela Fenam SUS nos serviços públicos em
todos os níveis (Federal, estaduais e municipais);
3- retomar a luta pela aprovação do Piso Nacional dos Salários
dos Médicos;
4- retomar as negociações com os grandes tomadores de trabalho
médico: poder público nos três níveis de governo
e iniciativa privada (Sinange, Fanais, etc_), visando também implantar
um piso salarial;
5- garantir condições dignas de trabalho, tanto no setor
público quanto no privado, viabilizar o trabalho dos profissionais
de saúde através de medidas de segurança para impedir
a violência, principalmente nas emergências;
6- intensificar a luta contra a abertura de novas escolar médicas,
exigindo do ministro da educação, o fechamento daquelas
escolas médicas desqualificadas e/ou abertas por interesse puramente
comercial/eleitoreiro;
7- apoio às iniciativas de educação médica
continuada, residência médica qualificada e remuneração
justa e atualizada para o médico residente com garantia de pleno
funcionamento de suas atividades assistenciais;
8- atenção especial ao médico funcionário
público, apoiando suas históricas e justas reivindicações,
planos de cargos e salários e aposentadoria digna, realização
de concurso público com efetiva nomeação de servidores,
pondo fim ao acesso irregular ao serviço público;
9- ação direta e incisiva junto aos planos de saúde
e principalmente com as cooperativas médicas e suas variadas formas
organizativas para que seja privilegiado o trabalho médico e não
somente a máquina e o lucro. Credenciamento universal e nenhum
obstáculo para o ingresso de novos médicos;
10- cumprimento da legislação existente sobre o ingresso
e o trabalho de médicos estrangeiros no Brasil. Que os acordos
e tratados que venham a ser firmados no Mercosul respeitem o inalienável
direito do médico brasileiro e a legislação antes
referida;
11- estabelecimento pelo CFM de parâmetros objetivos a fim de regulamentar
o artigo 86 do Código de Ética Médica sobre o preço
vil e extorsivo;
12- continuar a luta contra a privatização da saúde
e pelo cumprimento da constituição com a afetiva e definitiva
implantação de um SUS democrático público,
gratuito e de boa qualidade, somente possível com um orçamento
suficiente e permanente para o setor saúde e com a implantação
da tabela FENAM SUS, incluindo nesta luta a utilização da
CPMF efetivamente na saúde;
13- a luta permanente e unitária, com as demais entidades médicas
pela recuperação da dignidade do trabalho médico
e pelo aprimoramento de um sistema de saúde justo para o povo brasileiro,
e por um país livre e soberano, com a inclusão de todos
os setores da sociedade no trabalho e bem estar social;
14- a luta intransigente em defesa da Constituição Federal
e contra o governo das medidas provisórias;
15- finalmente, a luta constante diária e sem tréguas para
que o médico brasileiro adquira na prática seus direitos
e cumpra na integra seus deveres previstos no Código de Ética
Médica.
16- realizar seminário nacional com os médicos recém-formados;
17- discutir o trabalho médico no âmbito da PSF (Programa
de Saúde da Família);
18- realizar o ENEM (Encontro Nacional de Entidades Médicas),
junto com a AMB e o CFM;
19- apoiar a organização e fundação da Ordem
dos Médicos do Brasil.
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